Três livros para entender como raça, classe e tecnologia redesenham as desigualdades no Brasil

 

Três livros para entender como raça, classe e tecnologia redesenham as desigualdades no Brasil

Diálogos Editora estreia com obras sobre racismo algorítmico, alfabetismo digital e desigualdade no acesso ao tempo; novo selo nasce da experiência de mais de três décadas da Ação Educativa

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Quem tem direito ao tempo? Quem consegue navegar com autonomia por um país que transferiu parte de seus serviços, relações de trabalho e direitos para as telas? E o que acontece quando algoritmos desenvolvidos em sociedades racialmente desiguais passam a interferir no que vemos, consumimos e acessamos?

É colocando questões como essas no centro do debate que a Diálogos Editora chega ao mercado editorial brasileiro. Criada a partir da experiência de mais de três décadas da Ação Educativa, a nova casa estreia com três livros que aproximam tecnologia, educação, raça, classe, trabalho e democracia.

O catálogo inaugural reúne “Urgente é gente: estamos vivendo se estamos sempre correndo?”, de Michelle Prazeres; “Alfabetismo no Brasil em tempos digitais”, organizado por Roberto Catelli e Heloisa Trenche; e “A internet não precisa ser assim”, de Fernanda Campagnucci e Marcelo Soares.

Embora partam de objetos diferentes, os três títulos convergem em uma questão: as transformações tecnológicas não acontecem fora das desigualdades históricas brasileiras.

Em um país marcado por profundas diferenças raciais, econômicas e educacionais, estar conectado não significa necessariamente estar incluído. E tecnologias apresentadas como universais ou neutras podem carregar para o ambiente digital assimetrias que já estruturam a sociedade fora das telas.

O racismo também aprende a linguagem dos algoritmos

Em “A internet não precisa ser assim” (R$ 70), Fernanda Campagnucci e Marcelo Soares questionam a ideia de que a internet organizada em torno de poucas grandes plataformas privadas seria um caminho inevitável.

Os autores discutem concentração de poder, coleta e exploração de dados, funcionamento dos algoritmos e racismo algorítmico, mostrando que as decisões tomadas por sistemas automatizados não estão necessariamente livres das desigualdades presentes na sociedade que os produz.

Esse debate ganha importância à medida que algoritmos passam a mediar cada vez mais dimensões da vida cotidiana: o conteúdo que aparece nas redes, a publicidade recebida, oportunidades profissionais, reconhecimento de imagens, circulação de discursos e diferentes formas de acesso a bens e serviços.

A promessa de neutralidade tecnológica encontra, assim, um problema bastante antigo: nenhuma tecnologia é produzida fora da sociedade.

Quando raça e classe organizam historicamente oportunidades, renda, escolaridade e acesso a direitos, sistemas alimentados por dados dessa mesma realidade podem reproduzir essas diferenças em escala digital.

Ter um celular não significa dominar o mundo digital

Outra desigualdade aparece em “Alfabetismo no Brasil em tempos digitais” (R$ 75), organizado por Roberto Catelli e Heloisa Trenche.

O livro propõe ampliar a maneira como pensamos o alfabetismo em uma sociedade na qual trabalhar, estudar, movimentar dinheiro, marcar consultas, solicitar benefícios e acessar informações depende cada vez mais de plataformas digitais.

Nesse cenário, saber ler e escrever permanece indispensável, mas novas habilidades entram em jogo.

É preciso compreender interfaces, avaliar a confiabilidade de uma informação, identificar desinformação, proteger dados pessoais, reconhecer tentativas de fraude e entender minimamente os ambientes digitais pelos quais passam cada vez mais direitos.

Por isso, medir inclusão digital apenas pela existência de uma conexão ou de um smartphone pode esconder diferenças profundas.

Quem possui computador ou depende exclusivamente do celular? Quem tem internet estável? Quem consegue pagar por dados móveis? Quem recebeu formação para compreender criticamente aquilo que encontra na rede? E, sobretudo, como desigualdades educacionais historicamente associadas a renda, território e raça reaparecem quando serviços essenciais migram para o ambiente digital?

Até o direito de ficar offline é desigual

Michelle Prazeres parte de outro lugar para chegar a uma discussão igualmente atravessada por desigualdades.

Em “Urgente é gente: estamos vivendo se estamos sempre correndo?” (R$ 70), a autora investiga a aceleração da vida contemporânea e aquilo que acontece quando estar permanentemente ocupado e disponível passa a ser tratado como normal.

O debate sobre desacelerar costuma vir acompanhado de recomendações conhecidas: diminuir o tempo de tela, estabelecer limites, fazer detox digital, silenciar notificações. Mas quem pode realmente fazer isso?

Para trabalhadores que dependem de aplicativos para obter renda, pessoas que recebem escalas e demandas profissionais pelo celular ou famílias que precisam acessar serviços públicos por plataformas digitais, estar conectado pode estar muito distante de uma escolha.

A discussão sobre tempo, portanto, também é uma discussão sobre classe, gênero e raça. Em uma sociedade na qual o trabalho doméstico e de cuidado é distribuído de maneira desigual e a população negra permanece sobrerrepresentada em parcelas socialmente vulneráveis do mercado de trabalho, a possibilidade de simplesmente “desacelerar” não está disponível da mesma maneira para todos. Tempo livre também é um recurso socialmente distribuído.

Uma editora que nasce perguntando quem ficou de fora

Os três títulos formam uma espécie de declaração editorial da Diálogos Editora.

Em vez de tratar educação, tecnologia e democracia como campos separados, o catálogo inaugural aposta justamente nas zonas de contato entre esses debates - e na produção de livros capazes de fazer discussões acadêmicas circularem para públicos mais amplos.

Segundo Roberto Catelli, diretor editorial da Diálogos, a proposta é aproximar debates relevantes sobre educação, cultura e democracia da vida cotidiana.

A estreia acontece também em um momento particular do mercado editorial e da sociedade brasileira. Inteligência artificial, automação, poder das big techs, desinformação e transformações no mundo do trabalho deixaram de ser assuntos restritos à tecnologia.

São discussões sobre cidadania. E, no Brasil, também são inevitavelmente discussões sobre desigualdade racial.

Afinal, antes de perguntar o que a inteligência artificial fará conosco, talvez seja necessário fazer outra pergunta: sobre qual sociedade estamos ensinando essas máquinas a aprender?

Os três lançamentos

“Urgente é gente: estamos vivendo se estamos sempre correndo?”, de Michelle Prazeres — R$ 70
Uma reflexão sobre aceleração, trabalho, cuidado e a desigualdade existente até mesmo na possibilidade de controlar o próprio tempo.

“Alfabetismo no Brasil em tempos digitais”, organizado por Roberto Catelli e Heloisa Trenche — R$ 75
Discute como o conceito de alfabetismo precisa ser revisto diante de uma sociedade na qual o exercício de direitos depende cada vez mais da capacidade de navegar criticamente por ambientes digitais.

“A internet não precisa ser assim”, de Fernanda Campagnucci e Marcelo Soares — R$ 70
Investiga concentração de poder nas plataformas, exploração de dados, algoritmos e racismo algorítmico, questionando a ideia de que o modelo atual da internet seja inevitável.

SOBRE A DIÁLOGOS EDITORA

A Diálogos Editora nasce da experiência acumulada pela Ação Educativa ao longo de mais de 30 anos de produção e circulação de conhecimentos comprometidos com a educação, a cultura, a democracia e os direitos humanos. Com um catálogo dedicado às questões emergentes, urgentes e insurgentes do nosso tempo, busca ampliar o acesso ao conhecimento, diversificar as vozes presentes no debate público e criar espaços de escuta, troca e reflexão.

Site: www.dialogoseditora.org.br
Instagram: @dialogoseditora

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